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Oct. 25th, 2009

eu gritarei

(no subject)

Teste

Posted via LiveJournal.app.

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Jul. 22nd, 2009

janela

Menina Doida

Doce negação a que carregas
Na mala dos prazeres
Em gestos estudados, os olhos
Azuis, frios, gelados, negados
E olham-te, tocam-te e amassam-te
E tu sem nada a dizer. Apenas na mão, só
doce negação do prazer
Dos outros. Doce por ser
Oportunidade de ter também
Ódio, dor e ódio da dor
em dor, em ódio, em ti
sem mais ser que ódio, que dor
de gente que queres ser, também
Para chorares com algo na mão
E dizeres - eu tenho isto em mim.
- Eu tenho isto em mim!
Gritar – eu vou morrer por ter, vontade em mim!
E te evadires de ti,
E não te lembrares de ti,
Apenas o amargo da dor
Doce por não te veres...
Fácil para viver.
Comprimido das horas vagas.

Oh! menina doida, que vontade não é
Senão o desejo de ser, por ti
Longe da mala dos outros, longe
De ter o ser de quem o é, longe
Só, construção individual na luz do mundo.
Bruma no olhar por ter, mistério
Palavras na alma, segredos teus,
Vontade, vontade de viver.

Oh! menina doida, se não é esse o prazer
De ter olhos sãos na alma, o de viver?

Oh! menina doida das quimeras de alguém
Grita, grita, grita essa voz da menina
E acorda a vontade, e expulsa
A tontura que te vai na alma.
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Feb. 19th, 2009

usa-me

pensamento do dia

já sei sofrer.
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Nov. 19th, 2008

eu gritarei

o que realmente importa

Agora tenho 60. O frio atravessa a minha pele estragada, esfregada pelo tempo, velha, permeável. Pergunto-me se sou feliz. Sei que não existe chave para o baú que guarda a resposta. Imagino todos os momentos que ficaram, que me acompanharam - no fundo, que me enchem - e são sorrisos, e são olhos fechados em profunda tristeza. Paro. Grito. Grito tão alto, que perco o folgo, que fico tonto. Lembro-me de todos os nomes que ouvi, todas as faces, todos os olhares, todas as palavras, todos os abraços, todos os beijos. Lembro-me tão bem, tão intensamente que desejava não me lembrar. Lembro-me, mas só dos que me fizeram. Os que ficaram - e amo-os - os que nunca mais vi - e queimam-me o peito na ausência - os que nunca mais senti - e desejo a morte a dor tão insuportável do que nunca mais ser para quem amamos - os de quem me separei - e mereço o orgulho que me queima sem descanso, sem misericórdia - os que vi partir - e ainda hoje sinto-lhes o odor, sinto-os e choro. Olho para mim e sei que não valho por mim mesmo. Que só, sou tão invisível como a lua nova na noite. E sorrio porque assim sei que sou Homem. Porque sinto. O que realmente importa não sou eu, nunca fui, sendo-o sempre. É uma parábola imensa. Uma valência. Uma combinação. Uma balança. Hoje tenho 60, e não os tenho na realidade, sei-o bem. E quem me conhece também o sabe. E quem não me conhece, pode imaginá-lo. Hoje sei a importância das coisas, mas antes também o sabia. Embora o saber não ocupe lugar, por si só não nos impede de cometer erros. Porque os cometi, cometo, cometerei. Eu não gosto de errar, ainda assim existe esse espaço nas coisas. Os pensamentos atravessam a minha pele estragada, esfregada pelo tempo, velha, permeável. Eu sei o que realmente importa, e quando o que me vale esvanece, fico velho.

Nov. 10th, 2008

eu gritarei

walk away


já lá vai uma década, no entanto, ainda uma grande musica

Oh no
Here comes that sun again
That means another day
Without you my friend

And it hurts me
To look into the mirror at myself
And it hurts even more
To have to be with somebody else
And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away

With so many people
To love in my life
Why do I worry
About one

But you put the happy
In my ness
You put the good times
Into my fun
And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door

Weve tried the goodbye
So many days
We walk in the same direction
So that we could never stray
They say if you love somebody
Than you have got to set them free
But I would rather be locked to you
Than live in this pain and misery

They say time will
Make all this go away
But its time that has taken my tomorrows
And turned them into yesterdays
And once again that rising sun
Is dropping on down
And once again you my friend
Are nowhere to be found
And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door
You just walk away
Walk away

Aug. 11th, 2008

eu gritarei

i'll burn





I hate the way you talk to me
And the way you cut your hair
I hate the way you drive my car
I hate it when you stare

I hate your big dumb combat boots
And the way you read my mind
I hate you so much that it makes me sick
It even makes me ryhme

I hate the way you're always right
I hate it when you lie
I hate it when you make me laugh
Even worse when you make me cry

I hate the way you're not around
And the fact that you didn't call
But mostly I hate the way I don't hate you
Not even close, not even a little bit, not even at all.

Aug. 8th, 2008

eu gritarei

prejudice

declaro o meu ódio à beleza

Jul. 29th, 2008

eu gritarei

canção do silêncio

O silêncio veio para ficar, entre nós. Dizer que tudo acabou, sem mesmo começar. Mas o que sentimos dentro de nós veio para ficar: vazios, ausências dessas palavras que espero sempre ouvir como provas de um amor que teima em acabar.

Não posso continuar neste silêncio, que me rasga por dentro quando te olho no teu olhar. Quando me olhas: é um deserto imenso esse antes do amor: o silêncio.

Sinto o cheiro trágico de tudo isto.
Vejo o fim tão claro como no inicio.
Ardi. Ardemos. Demos a mão para nos perdermos.
Ardi. Ardemos. Perdi. Perdemos. Morri. Morremos.

Não posso continuar neste silêncio, que me rasga por dentro quando te olho no teu olhar. Quando me olhas: é um deserto imenso esse antes do amor: o silêncio.

Cedemos esse amor. Cedemos sem pensar.
Cedemos ao silêncio no medo de olhar para trás.
Cedemos esse amor: sem pensar. Meu deus, sem pensar.



noite de filmes

eu

3ª entrada

Encontrei o meu diário de miúdo. Acho que na altura o considerava o meu melhor amigo. É tão estranho. É complicado ter noção do tempo. Noção daquilo que fui, e que, de alguma forma, faz parte de mim. A forma de pensar tão clara, essa a de ser criança. São os degraus da minha extensão como pessoa. Enfim, partilho.

"97-07-21, terça-feira 12:38

(...) a Diana, a que gosta de mim ficou meia chateada comigo! É que eu disse-lhe que não gostava dela ao contrário dela. Foi quando ela se deitou na toalha e escondeu a cara como se fosse chorar. Claro que eu tentei consolá-la, e disse para ela me prometer que não ficava chateada comigo, coisa que ela não aceitou, o que eu não percebi. Mas ela disse-me que ia explicar o porquê hoje!! Acho bem que sim, porque eu não tenho culpa de nada! Eu bem lhe disse que uma pessoa não podia ter uma relação com outra, sem no mínimo se conhecerem bem. Pois eu não acredito no amor à primeira vista! Mas creio que hoje tudo se resolve. Até logo."


tinha 13 anos. que crueldade.

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Jul. 24th, 2008

eu gritarei

2ª entrada





(algures nos anos 80)


porque ninguém se preocupava, deixei de me importar. fingimos
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Jul. 23rd, 2008

eu gritarei

1ª entrada

Terça-feira, 22 de Julho de 2008. 15.38. Ainda tenho o registo no meu telemóvel. Quinze minutos antes e ele já me chamava a atenção. Fiquei a olhar. Não sei o que estava à espera. Não sei se esperava realmente alguma coisa. Olhava-o apenas. Dez minutos volvidos, deixou de respirar. Nada podia indicar. Ele sabia que ia acontecer, mas não o disse: porque sentia vergonha. Talvez porque achava que ainda conseguia. Não gritou. Não disse nada. As pessoas não gostam de se mostrar fracas. Sei-o. Está na nossa natureza. O ser humano tem um mecanismo muito próprio de “ego-defesa” quando em ambientes não familiares: desconhecidos. Eu sei que a mulher dele estava a uns quarenta metros. Eu estava a trinta. Pergunto-me se a procurou com o olhar, ou se as forças com que se batia lhe ocupavam todo o raciocínio que a esta altura já se desmembrava em instinto: a sobrevivência. Parou de respirar. Morreu. Terá valorizado mais o acto de se evadir da escuridão que o agarrava com os braços bem vincados na pele, ou pensava nos anos que trazia nas costas, nas imagens, nas palavras, no primeiro beijo, na felicidade, na tristeza, na mãe, no pai, na mulher, nas coisas que fez, nas coisas que não fez, talvez em deus, na vida? Não sei. Sei que desistiu. Senti-o de forma muito clara. Aquele momento, aquele pequeno pedaço de tempo onde decidiu abandonar a luta. Parei. Tive a certeza, sem a ter realmente: mas sabia-o. Parecia um boneco tombado no chão. Morto. Já vi muita gente morta, mais do que alguma vez gostaria de ter visto. Pensar que o fim é tão cru, tão duro, tão todas as outras coisas que não têm nome: as que se sentem; como se tivéssemos pequenos receptores que processam a informação e a decifram para mensagens bioquímicas tão subtis, que não as conseguimos alcançar. Apenas sabemos que estão lá e que nos provocam reacções em cadeia que abarcam tudo o que somos e respiramos, sem sabermos bem o que isso é. Não queria que ele morresse. Não comigo ali, confesso. O corpo dele estendido no chão. Aproximei-me. É um dos paradoxos mais interessantes, o do coração. É-lhe atribuído tanto valor, tantas histórias, metafísicas, o próprio amor: no entanto, nada mais é que algo mecânico, que pára à mais ínfima falha: como um relógio que avaria. E como tudo que avaria, é preciso arranjar. Muitas coisas lhe terão enchido o peito durante a vida, mais do que o ar que agora não tinha. Naquele momento, a cada segundo que passava, o peito diminuía-lhe numa pressão de cinco centímetros, o suficiente para lhe massajar o coração. A luta já não era a dele. Era a de todos nós. Era minha. Era da mulher que chorava. Das famílias que se agrupavam. Dois sopros que não eram dele a encherem-lhe o peito. Uma luta tão estranha: não existe um oponente físico. É uma batalha contra o silêncio, a morte. Aprendi e estudei algumas formas de combate, e naquela altura, nenhuma valia nada. O segundo sopro de vida. O coração já trabalhava, devagarinho, mas trabalhava. Corri para chamar a ambulância. 15.38. voltei para junto do homem e perguntei a quem me ouvia como estava a respiração. Os olhos do homem pareciam querer sair do crânio. Sei que ele não via nada. Pelo menos não de forma lúcida. Nestas situações o corpo humano, assim como os nossos computadores tomam as acções que se seguem a um reboot: a informação é processada até atingirem a estabilidade necessária ao desempenho de funções. Não tardou já se ouviam as sirenes. Não tardou já lhe colocavam a máscara de oxigénio. Voltei para o local onde estava quando tudo começou. Sentei-me. Enquanto o carregavam ao longo dos sessenta metros que o distanciavam da ambulância, olhava para mim. Não consegui deixar de o olhar também. Foi um momento bastante estranho, como se a fechar um ciclo, aquele que iniciei quando o observava de longe, sem saber o que se iria passar. Fico feliz por se ter safado. Sei que a mulher dele também. Não sei se teria filhos. Gostava que tivesse. Tenho a certeza que a partir deste dia os ia amar de uma outra forma, talvez mais intensa, desprendida dos acessórios sociais. Foi um dia diferente de verão.
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Jul. 21st, 2008

pessoa

momento





Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar
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Mar. 22nd, 2008

janela

tempos de crise

Sapateiro. Rua das camélias. Primavera. Guilherme alinha os passos das pessoas, na oficina. Do trisavô para o avô, do avô para o pai, do pai para o filho: Guilherme aprendeu a arte da genealogia, apertou as mãos do passado. Tem tido muito trabalho. Agora é só ele, sozinho. O pai mudou de direcção, vive na rua das chaminés, número trezentos, campa dezanove. O filho de Guilherme, José, não se interessa muito pelo ofício. Passa o tempo agarrado aos livros, quer ser escritor. Ontem, pintor. Anteontem, actor de cinema. A leveza de não ser, ainda, realmente nada. Adelaide, mãe, mulher, faz costura em casa. Maria, filha, irmã, foi com José comprar carne para o almoço.
Guilherme liga o rádio, na oficina. Estremece o corpo. Quinta-feira. Desliga o rádio, fecha mais cedo a oficina. Corre. Corre e não olha para trás. Na rua das Camélias, correm as outras pessoas. Fogem de uma notícia, para casa, para os braços da família. Guilherme aguarda o eléctrico, tremem-lhe as pernas. O tempo não é tempo, ali, na paragem. O tempo é o peso de três pessoas no peito: a família.

A guerra chegou.

Em tempos de crise enchemos o peito com os que nos são próximos: vivem dentro de nós. Respiramos. Respiramo-nos

Feb. 9th, 2008

usa-me

qualquer coisa

A madrugada estende-se de forma leve sobre o peito negro da noite. Tocam-se, diluem-se, amarram-se como dois amantes que se despedem num último beijo, numa última carícia, num último fôlego. Um instante, um pequeno instante, tão claro, tão lúcido, tão real. Tão curto. Choram uma despedida envolta no frio dos corações que adormecem exaustos, que se confortam num sono profundo, que se embalam em leves soluçares, que choram: neva. Um pequeno instante que os junta. Um pequeno instante que os separa. Um momento. Tão curto. A madrugada. Noite e dia.

Vivo sempre no final, no verso do que quero ver em mim. Rasgo, ceifo, corto, morro. Amanhã morri. Tudo acabou. Levo o medo, escondo o mal: fico preso a quem não sou. Hoje morri. Tudo acabou. A mente é rebelde, tem a força de cem mil cavalos que galopam porque são livres, porque podem. A mente é rebelde, esse travo de liberdade preso na promiscuidade das coisas que não são nossas, mas que estabelecem um equilíbrio. Não preciso de me explicar, para bom entendedor meia palavra basta. E a meias palavras andamos, cançados. E a meias palavras dominamos. É tudo um equilíbrio. As palavras são perigosas, seguem-lhe os actos, os actos reforçam as palavras.

Um dia vou morrer, e tudo vai ser igual. Podem mudar os nomes, colocar embrulhos cada vez mais brilhantes. Continuará sempre tudo igual. Amanhã morri. Tudo acabou. Não é necessariamente retórico, mas tambem não é erudito.

Nov. 29th, 2007

janela

o arado não se move

Existem momentos na vida, essas pequenas telas do olhar, onde nos pintamos na periferia de um foco visual, presos numa moldura que nos sufoca, deslocados em ambientes controlados, porosos, num espaço, num tempo. Pedro era o risco que não era contorno, a cor que não era forma, o traço que não era composição: Pedro não era. Como as mãos, os dias envelheciam com ele, ganhavam o calo de uma vida: o suor das rotinas. Morriam juntos. Acordava com o raiar do dia, no campo, na terra. O dia era a lavoura.

A manhã é intensa, quente. O arado embateu contra algo submerso na terra. O arado não se move, quebra a rotina. Pedro empurra, grita ao animal que o puxe. O arado não se move, o burro não se move, a terra não se move.

Pedro já foi casado. Aconteceu tudo muito rápido. Pedro já teve filhos. A vida foi um segundo. A manhã começava na mesa, em família. Tudo o que tem início, conhece um fim. O café com leite, o pão, os sorrisos de um dia que começava todas as manhãs na mesa de madeira da avó. As manhãs também têm um fim. Tudo fazia sentido, haviam propósitos, vontades servidas pelo amor.

Mergulha as mãos na terra. O calor nas costas, gastas, velhas, suadas: o corpo também chora. O burro deita-se na terra, descansa. O arado não se move. Pedro cava. As mãos são calejadas. O corpo debruçado em esforço, chora.

No final da estação, dois terços do cultivo eram entregues ao dono da propriedade. O sacrifício da lavoura era obrigatório, trazia um telhado, um prato na mesa. Foi a terra dos pais, dos avós. Com a peste negra, já não havia dinheiro guardado por debaixo do soalho do quarto dos pais, haviam apenas papeis, dívidas. Da noite para o dia, todo o esforço de uma geração conheceu novo proprietário. Conheceu uma corrida contra o tempo, contra a tirania de um soberano. Aconteceu tudo muito rápido.

Pedro levanta-se. Soltam-se rios dos olhos. A água percorre a face pálida, cai na terra. Da terra nascem memórias a preto e branco, semitransparentes. Têm raízes. À sua volta uma floresta de memórias, agarradas ao chão. Os pais, os avós. Crescem no sal das lágrimas. Do buraco cavado, brotam os filhos, a mulher. Têm buracos no peito, na cabeça. Os braços são ramos que o agarram, que o arranham: têm espinhos. O sangue na terra. Crescem três homens do vermelho turvo. Pedro chora. Crescem com raízes que o prendem ao chão. Olha à sua volta. O burro é agora cavalo, montado pelo soberano, que sorri. O soberano sorri. Os três homens disparam contra Pedro. Abrem-se buracos na carne. Os braços da família, as raízes. Pedro resiste. As raízes que o puxam para a terra. Pedro vê a família no buraco, morta. Pedro vê-se, morto. Foi tudo tão rápido. O arado não se move. Por debaixo da terra, Pedro, a mulher, os filhos, não se movem.

A época não foi produtiva. Não tinham cultivo suficiente para pagar ao senhor da terra. A mulher chorava. Os filhos não compreendiam. Pedro, lá fora, sangrava das mãos, puxava ele o arado. Não parava. No pensamento o amor pela família. Pedro sangrava o inevitável. Foi tudo tão rápido.

O arado não se move. Na terra cavada, jaz Pedro e a família. Pedro encontrou-se.

Nov. 3rd, 2007

hiena

que morra

Que o monstro morra, na forca, em praça pública, que morra. Uma criatura imprópria, sem quaisquer aptidões sociais, exterior a um modelo sem inflexões, íntegro: o das pessoas normativas. Acercam-se as multidões. Uivam o desprezo bem alto, que morra, que morra. O monstro não consegue ser feliz, que morra. O mundo é a igualdade, a outra mão, o ombro. Senta-se à mesa e observa, envolto de um silêncio marginal, no medo de dizer uma coisa qualquer sem importância ou direcção. Medo que não o ouçam, que o ignorem: a criatura. Que morra. O medo é espírito dos fracos, dos não puros. Morte ao monstro. Carregam-no para o altar de madeira. Cospem-lhe na cara. Não é extraordinário, é comum. Conta a história que um dia disse não. Os mais convictos dizem-no filho do anjo caído, ele disse não. Não. O mundo é livre, mas não abarca as diferenças. Batem com pés no chão a marcha da morte. O monstro não se sabe valer da sua opinião. Não se sabe fazer ouvir. o monstro é fraco. Fraco. Fraco. Fraco. A corda no pescoço. que morra. que morra. que morra.

Matem-me

Oct. 29th, 2007

eu gritarei

fala-me

Do silêncio entre duas pessoas. Cinzento: o mar, o céu. Esse grande horizonte que se confunde, que se enlaça: papel de cenário: o nosso. Ouço gaivotas gritarem loucuras, palavras soltas, declarações de amor, avisos de guerra, o tempo, o mar. Caminhamos, mas não falamos. Fingimo-nos distrair com a locomotiva que atravessa a praia, numa fina cortina de chuva. Caminhamos, mas não falas. As palavras parecem pequenos espinhos. Podia dizer-te tanta coisa. As palavras custam a sair, magoam. Não falo. Para trás ficam as nossas pegadas, lado a lado, pequenos vazios que deixamos na areia, a medo. Do silêncio entre duas pessoas, fica o incómodo dessa ausência que se espreguiça no corpo.
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Aug. 23rd, 2007

janela

III

Desejar quem não se pode ter: a fórmula perfeita para a infelicidade: o ardor no cérebro, nas noites de solidão...

A noite abraça-o e torna-o só, no negro de quem se deita na cama do desejo: a doença que o aflige por dentro, que o abre. Recorda os olhares, morre. Recorda o sorriso, morre. Recorda o som da voz, morre. E a recordação é o que os aproxima, e a recordação é o que o mata. o tempo vincado na pele. Chora. A razão é que o sufoca. morre um pouquinho mais. Ele sabe. Ele sabe. Ele sempre soube: o medo de sentir, e sofre. O amor é uma doença degenerativa, quando desejado. o olhar que o absorve e não lhe permite desviar, pestanejar: cada segundo conta para trazer para casa a ilusão nos olhos.

eu quero. e tu?

Aug. 3rd, 2007

janela

II

No tempo dos dias, muitos são os que nos abraçam na empatia. Contudo, poucos são os que nos abraçam no esturvinhar dos sentimentos: aqueles que nos fazem desejar ser completos na fragmentação inacta da espécie. E enquanto não se tem o dois, o tempo é carrasco: os dias são constantes penas de morte.

As noites parecem cada vez mais longas. Aos três que se arrumam dentro dele, junta-se a solidão para vincar o tempo. São quatro: o silêncio, o vazio, a paixão e a solidão. A impossibilidade de saber-se completo. O tempo conta-lhe da paixão que o habita. Os olhares, as palavras: o desejo que o consome. A razão que o rouba e o atira doente, para a cama, nas noites de penitência: a prisão, a paixão, a solidão.

eu quero. e tu?

Jul. 30th, 2007

janela

I

O desejo e o silêncio do desejo podem ser fatais: um organismo vivo que se vai alimentando aos poucos e poucos, por dentro: diagnóstico do paciente que se vê, que se faz, na razão dos outros...

Ele apaixonou-se de levezinho. Ainda não sabe, senão uma sensação na barriga quando cruza o olhar, quando se prende no olhar, quando se vê no olhar e se prende uma outra vez no olhar e deseja: e são tantas as coisas que se dizem num olhar, quando se prendem. Um vulto negro: a razão, e não bate à porta. Não tem rosto. A porta aberta: entra no quarto e bafeja um silêncio sufocante e quente que o agarra, e o abre, e lhe rouba tudo o que não lhe obedece: a razão é ladra dos desejos. O corpo dele aberto, chora. O silêncio que o invade e lhe fecha o peito, a laceração de sentir. O silêncio alojado no corpo dele. O vazio que o preenche, sem o preencher na totalidade: ficou a paixão: porque a paixão, ainda que menina, não se rouba. Nem mesmo a razão se permite a tocar-lhe, porque a desconheçe: porque a razão avalia e calcula. Fica a paixão levezinha, o silêncio e o vazio.

eu quero. e tu?

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